Dia das Geleiras e da Água: por que o Perito Moreno importa mais do que nunca

A geleira é cem por cento água
O corpo humano é apenas sessenta por cento água. O sangue é noventa, os músculos setenta e cinco, o cérebro quase o mesmo. A geleira é cem por cento água: neve caída ao longo de centenas de anos, comprimida até se tornar gelo azul, translúcido. Um mineral a céu aberto que não precisa que ninguém o mine para encontrá-lo, que não exige nem concessão nem extração.
A parede de gelo do Perito Moreno tem setenta metros de altura sobre a água, praticamente a altura do Obelisco de Buenos Aires, e uma massa submersa sob a superfície do Lago Argentino muito maior. Três quilômetros de largura e 250 quilômetros quadrados de superfície, maior que toda a Cidade de Buenos Aires. Quando olhamos desde as passarelas e um pedaço desse gelo se desprende e cai no lago, ficamos ainda menores.
O Campo de Gelo Patagônico Sul, do qual o Perito Moreno é apenas uma parte, é a terceira maior reserva de água doce do planeta depois dos polos, e a única das três que se pode chegar caminhando. Por isso adoramos levar as pessoas para vivê-lo: para dimensionar seu tamanho e sentir sua importância.
O Campo de Gelo Patagônico Sul cobre aproximadamente 12.000 km² entre Argentina e Chile. Dele nascem mais de 48 geleiras, entre elas o Perito Moreno, o Upsala e o Viedma. É o maior campo de gelo continental do mundo fora dos polos.
Dois dias, uma só conversa
Em 21 de março celebra-se o Dia Mundial das Geleiras. Em 22, o Dia Mundial da Água. A ONU os colocou um ao lado do outro porque falam da mesma coisa: as geleiras armazenam cerca de 70% da água doce do planeta. Mais de dois bilhões de pessoas dependem do degelo glacial como fonte de água. Uma em cada quatro pessoas na Terra.
Estima-se que um terço das geleiras atuais terá desaparecido até 2050.
O Perito Moreno em um planeta que derrete
A maioria das geleiras do mundo está recuando. O Perito Moreno não, ou pelo menos não no mesmo ritmo: avança entre um e dois metros por dia, perde massa na frente lacustre, e o resultado líquido é uma estabilidade que os glaciologistas continuam estudando. É uma raridade científica e, para quem vive aqui, também uma sorte.
As geleiras vizinhas contam outra história. O Upsala, a maior do Campo de Gelo Patagônico Sul do lado argentino, recuou mais de quatro quilômetros nas últimas décadas. O Spegazzini, o Onelli. O Perito Moreno é a exceção; os outros são a norma.
A lei que protege o gelo
Em 2010, a Argentina sancionou a Lei Nacional de Geleiras. Declara as geleiras e o permafrost bens públicos, proíbe atividades extrativas em zonas glaciais e periglaciais, e cria o Inventário Nacional de Geleiras como ferramenta de monitoramento. É uma das legislações de proteção glacial mais completas do mundo.
Há alguns anos existe pressão para modificá-la. O argumento é econômico: investimento minerador, zonas de altitude, projetos que a lei freia. O contra-argumento é mais simples: a água que essas geleiras garantem não tem substituto. A escassez hídrica já é uma crise em curso em várias regiões do planeta, não um cenário futuro.
Desde El Calafate isso não se vive como um debate abstrato. É uma discussão sobre o lugar onde vivemos e trabalhamos.
Se você quiser saber mais sobre a Lei 26.639 e as mudanças que estão sendo impulsionadas, pode ler nossa matéria completa sobre a Lei de Geleiras na Argentina.
Perguntas frequentes
Perguntas frequentes sobre geleiras e água doce
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